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Abecedário - Aprender

Acho importante ficarmos atentos para não reduzir o conceito de APRENDER a capacidade de memorização de alguma informação. Decorar uma canção ou memorizar progressões harmônicas é um exercício de fixação. Aprender, assim como produzir conhecimento, tem relação direta com o pensar e o sentir. O que é memorizado, racionalizado ou então automatizado não necessariamente é apreendido. Precisa produzir sentidos, sensações, fazer passar algo novo. Um elemento chave nessa noção de aprendizagem são os afetos.

O que posso apreender em uma canção além dos ritmos, dos acordes ou análises "formais"?

O filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) entendia que um novo conhecimento é produzido quando somos tomados por uma vontade de agir no mundo. Agir a partir dos estranhamentos no mundo. Para que esse deslocamento ocorra é fundamental problematizar as rotinas produzidas cotidianamente.

Manoel de Barros conta que aprendeu com o pintor Boliviano Rômulo Quiroga a importância de não usar "o traço acostumado". O "traço acostumado" pode ser um tipo de automatização na pintura. O desafio então é desviar desses clichês e das fórmulas prontas. Problematizar a repetição do mesmo é importante. Aquilo que já está naturalizado. Ou ainda, abrir mão de um modo de pensar utilitarista, muito comum aos nossos tempos.

Para que serve isso? Talvez para nada. Algumas coisas não servem pra nada. E o nada pode produzir múltiplos sentidos. Pode ser fundamental para aprender algo novo!

Bergson diz também que a arte nos permite romper com as impressões úteis, automatizadas. Das relações estabelecidas com os objetos de que precisamos para sobreviver (agir e reagir), tornando-nos capazes de perceber a individualidade (imanência) das coisas.

Abecedário

APRENDER será sempre em ato. Tudo bem! Compreende também momentos de memorização e produção de automatizações. Mas não se reduz a isso. É um exercício de deslocamento de si que força o pensamento a pensar. O resultado desse movimento é a produção de novas formas de viver.

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